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MATANZA: Entrevista exclusiva com o vocalista Jimmy London


A Matanza é uma das poucas, senão a única banda brasileira de rock pesado que tem um grande público. Levando em conta que o som dos caras, além de pesado, é seco, direto e sem frescuras, fica difícil saber como conseguem se manter tão em alta em um mercado cada dia mais complicado. Conversamos com o vocalista da banda, Jimmy London, figura quase folclórica da cena roqueira nacional, sobre a trajetória da Matanza. Confira o resultado abaixo:

Como surgiu a ideia de montar a banda? Qual o motivo do nome “Matanza”? Tem alguma relação com a cidade espanhola “Matanza”?
Matanza na verdade é uma cidade em Cuba e no México. Tem um pá de “Matanza” no mundo, tanto que a na Espanha eu também não sabia, por exemplo. Faz tempo demais pra falar sobre isso de como a gente inventou de fazer a banda ou de como a gente tenha feito o nome. Acho que essas coisas já ficaram, já foram, cada um inventa as coisas que quiser, cada um fica a vontade pra inventar a mentira que quiser, porque também inventam um monte de mentira. Outro dia falaram que a gente queria fazer uma versão “Mad” e “Bonanza” e dai ficou Matanza. Aí fode, né (risos). Mas em relação à banda, a gente achou o nome do caralho mesmo e fizemos o nome da banda

A ideia do Matanza Fest, teve alguma inspiração no SepulFest?
Na verdade a gente tocou no Sepulfest e não foi legal não. Não tivemos muita facilidade.Tocamos uma vez só, tivemos um stress do caralho com equipamento, entramos no palco com muitos problemas. Mas pra falar a verdade eu não lembro direito, já faz tanto tempo que eu nem lembro a ordem das coisas. Se foi a gente que fez merda, se não tínhamos experiencia para chegar lá e aproveitar a oportunidade ou eles que zoaram com a gente, principalmente porque éramos banda de abertura, dai não rolava muito apoio. Nos estressamos pra caralho com eles. Nós na verdade só tínhamos um técnico de PA na época e não era grande coisa também. Não tínhamos técnico de monitor nem nada e, porra, o técnico de monitor contratado pela empresa lá nem foi, deu a maior merda! Ferrou com a gente pra tocar, foi bem difícil. E ai pra ajudar, os organizadores do festival ficaram putos com a gente achando que a gente que tinha ficado puto com o som e tinha dado escândalo. Ai eu virei pra ele e falei: “Qual é mermão? A gente foi lá tocar, tava tudo zoado, e você veio reclamar com a gente porque a gente ficou puto? Qual é?” Aí rolou um puta stress lá, mas anyway, já passou. Essas coisas são assim mesmo. Mas também já tem tanto tempo, que eu não faço idéia de quem tá vivo e quem não tá. Eu por exemplo não tô. Mas na verdade não nos inspiramos no SepulFest. Fazemos uma porrada de shows e em todos eles vemos uma porrada de coisas maneiras e um monte de coisas menos maneiras. E sempre achamos que aquela galera que vai no show do Matanza merece que pelo menos as coisas muito óbvias pra melhorar a noite a gente pode mexer. Então as bandas de abertura que têm mais a ver e que têm lá um respeito pra poder passar um som maneiro, pra gente poder passar um equipamento maneiro pra eles poderem tocar um som maneiro pra galera, que o lugar fosse um lugar maneiro, que a gente fizesse uma promoção de birita pra galera poder comprar birita mais barata, coisas pequenas, sabe? Mas que é o mínimo que a gente pode fazer pro público do Matanza, já que os caras vão no show, apoiam, sabe, é do caralho isso. E porra, eles estão pagando ingresso, eles não estão fazendo favor para ninguém, e a gente também não tá fazendo favor nenhum para eles. Não cara, a gente tá entregando um produto ali, temos a obrigação de fazer um show direito, um evento direito na verdade. O nosso show a gente sempre fez direito. Sempre fazemos o melhor que podemos. Desta vez, viramos e falamos: “pô, perai mermão, vamos fazer isso aí direito!”. E é assim do início ao fim. Desde a hora que o maluco chega, até a hora que o maluco vai embora, tentamos fazer com que ele tenha a melhor noite possível. Isso não quer dizer que a gente vai arranjar mulher pra ele, que ai já é um pouco demais (risos). A menos a noite ali, a gente pretende que do início ao fim seja da maneira que a gente acha que que é um show maneiro, que é o nosso objetivo. Está sendo feito de uma maneira muito dura, sem patrocínio, sem porra nenhuma. Da nossa maneira, no carão mesmo e a gente também não pode ficar se dando ao luxo de muita coisa, colocando o que a gente consegue agilizar pro público e pra bandas. Mas a gente ta fazendo de muita boa vontade.

E até agora, do Matanza Fest anterior, em Porto Alegre, você acha que está valendo a pena tanto esforço?
Tá valendo sim. Foi muito do caralho, assim como Curitiba e todos os outros lugares que foram escolhidos pra ter o Fest, Porto Alegre é um lugar do caralho. E na verdade a gente nunca tocou em um lugar e falou: “porra, que lugar escroto”. Onde tem os camisas-pretas, não adianta, vai ser do caralho. O cara gosta de rock mesmo, vai lá, se diverte pra caralho, faz o que quiser, o cara vai lá pra se divertir mesmo, não pra arrumar confusão. O cara não vai pra fazer merda e isso é uma coisa inerente ao camisa preta, ao rockeiro de verdade. Mas ah, Porto Alegre foi foda! Eu senti uma diferença muito grande, muito maneira ali na vibe da galera por estar em um Fest, por estar sendo um lance que o cara já estava desde cedo ali numa pressão de que “hoje é uma galera diferente, não é uma galera que ta esperando pra ver um show. É uma galera que ta vendo uma porrada de shows, se divertindo pra caralho.” O povo tava muito na vibe, tava muito amarradão. Tanto que foi um dos dias mais insuportáveis de calor lá no Opinião. Todo mundo morrendo lá, uma galera passou mal, desmaiou. Isso é uma merda mesmo, mas mostra que o povo tava muito afim da parada, saca? A gente também, quase morreu. Foi o maior perrengue. Foi do caralho mesmo. Eu não queria estar em outro lugar que não fosse aquele lugar naquele momento.

E você espera o que pro fest daqui de Curitiba?
Já to suando pra caralho aqui. Vou pra Porto Alegre, o maior calor. Ai venho pra cá achando que vai estar mais de boa, tá pior ainda. Ainda bem que o último é em Recife, vai estar quase zero grau lá (risos).

Vai rolar algum DVD?
Agora do Matanza Fest não, tanto porque a gente nem tá filmando nada. Mas os planos do Matanza Fest são imprevisíveis, no sentido de que a gente não pretende parar de fazer. A gente gosta muito do lance e é uma coisa muito legal, tanto que a gente pode tomar conta do evento e isso pra gente é algo, por mais trabalhoso que seja, aliviante, porque a gente não precisa ficar com intermediários pra lidar com som, com lugar, ou com uma porrada de coisa que nos ajuda muito. Então a gente pretende ficar fazendo o Fest e a gente pretende ir fazendo a coisa rolar, pra conseguir um patrocínio, poder fazer com as bandas “fodonas” que todo mundo quer ver. Chamar mesmo, poder pagar o cachê de todo mundo, sem problemas pra fazer um puta evento.

E já tem planos de fazer alguma edição fora do Brasil do Fest?
É complicado isso, visto que o Matanza não tem uma carreira lá fora, a gente não saiu desde o inicio da banda pra tocar lá fora e hoje em dia a gente não tem carreira nenhuma lá. É mais fácil bancar um Ratos de Porão Fest e abrir pra eles, que eles já tem um puta público na Europa e os shows deles lá são animais. Então é um pouco mais difícil de fazer o Matanza Fest ser internacional, mas trazer banda de fora, aí eu acho tranquilo, tanto que tem uma porrada de banda foda por ai que ta vindo o tempo todo pra cá e ai sim seria uma coisa legal pra fazer.

Sabemos que no Brasil há muitas bandas que tem um som de qualidade, porém, na maioria dos casos, falta apoio para crescer. O Matanza também enfrentou muitas dificuldades do gênero?
Na verdade não enfrentou. Enfrenta isso cada dia. A gente trabalha bastante, bastante mesmo. Por exemplo, chegamos aqui hoje 08:20 da manhã. Isso quer dizer que pra ter chegado esse horário aqui, o nosso avião saiu do Rio as 7h e como a gente chega com duas horas antecedência pra despachar o equipamento, a gente chegou no aeroporto as 5. E como eu moro longe do aeroporto, eu tive que sair de casa as 4, ou seja, eu acordei as 3:15 da manhã, pra estar aqui antes do horário de som pra poder agilizar as coisas, ver o som pra ficar do caralho pro público. O trabalho todo, em qualquer tipo de banda é muito forte, muito puxado e amanhã vamos sair 6:30 da manha pra tocar em Brasília, naquele mesmo esquema, chega lá, confere tudo, passa o som. O trabalho de qualquer tipo de banda é isso, é trabalho o tempo todo. Além de enfrentar umas dificuldades como perda de equipamento, que foi o caso no aeroporto aqui, perdemos equipamento lá, e está sendo a maior sessão pra recuperar. Mas na verdade isso ai é o de menos, por exemplo, das quatro horas que eu dormi aqui no hotel, quando eu acordei, tinha 75 e-mails de coisas urgentes pra resolver do Fest de hoje e de amanhã, e naquela, já acordei, com telefone, e-mail, tudo a mil, falar com o pessoal da casa, com a assessoria, entrevista, transporte… Tinha uma porrada de coisa pra ver ao mesmo tempo e isso é o trabalho do dia-a-dia. Eu trampo pelo menos 16 horas por dia nisso, da um trabalho enorme mesmo, e é isso ai. Agora muita gente reclama assim: “pô, a gente não tem apoio”. É, você não tem apoio mesmo. Ou você faz, ou você faz, a não ser que você por acaso encontre um mecenas da cultura que te pegue pela mão e fale: “ó, eu vou cuidar de você, vou fazer tudo pra você, você fica ai compondo suas músicas e seja um gênio, que eu faço o resto.” E olhe, isso aí não acontece nem com o Matanza e praticamente com quase ninguém, então o apoio da banda é a própria banda. Igual a vida, você tem pai e mãe até os 18. Passou disso, é só pé na bunda.

Recentemente, o Dave Mustaine disse que tem muita banda por ai que exagera na edição, colocando muita coisa digital, fazendo com que a banda se pareça ser melhor do que ela é efetivamente, e pelo que eu vi, o Odiosa Natureza Humana fugiu desse ‘padrão’, ele foi gravado da maneira ‘Old School’ com fitas de rolo, e sem interferências digitais. Qual foi o motivo?
A gente tem a vibe de que o som da bateria tem que ter o som de bateria e guitarra tem que ter o som de guitarra e a gente na verdade fica muito puto quando a gente chega lá, leva nossas coisas, nossos amplificadores e tá o maior som lá, e dai chega no disco e tá menos som. O cara acha que ficar “menos som” é maneiro, sacou? Não, cara! A gente quer mais som! A gente quer que saia o som que tava saindo lá no amplificador, tem uma cadeia toda lá no processo de fazer o som. É muito complicado de fazer a parada sair. Arrumar o espaço e tudo mais. O que a gente mais quer é que a bateria que a gente montou ali, que a gente demorou pra escolher aquela bateria, naquele modelo, a caixa, os tons, os surdos, os pratos com o som daquele disco, que a gente ficou ali ouvindo e pensando: ‘vamos mudar isso, isso e aquilo’. A gente quer  que no disco esteja o som que a gente ouviu aquela hora. O que de certa maneira é meio difícil, porque tem aquela galera que é muito viciada em alterar o som. É difícil mesmo captar o som da mesma maneira, de forma que elas fiquem iguais aos que elas soavam quando foram gravadas, tanto que a gente grava com a mesma galera, desde o primeiro disco, sacou? Com o mesmo produtor e tudo mais e ali não tem conversa, todo mundo concorda plenamente em soar como estava soando como estava ali naquela sala que a gente tocou. Basicamente como se você ouvisse a gente tocar lá o tempo todo. Então o objetivo do Matanza é esse: dar o melhor da gente pra que um dia você coloque o disco pra tocar e pareça que o Matanza esteja tocando dentro da sua sala, errando o que tiver que errar, acertando o que tiver que acertar, mas ali com você. Você ta ouvindo o Matanza e não uma enrolação barata.

Isso foi ocasional ou pretendem repetir?
Velho, pode ser que tenha um dia que a gente vire e fale: “ah, agora fodeu de vez, todo mundo vai tocar teclado na banda”. Na real eu acho isso muito difícil, a gente manteve essa ideia sempre, e tem muito a ver com a temática da banda. A gente acha que manter essa temática e continuar a falar sobre isso, falando seja lá sobre o que a gente fala de verdade, porque muita gente fala: “ah, mas vocês só falam sobre birita e porrada…” Não é muito bem disso que a gente fala não. Isso aí tem um nível mais profundo, que fala sobre outras coisas, mas de qualquer maneira, tem a ver com isso. De fazer um lance de seguir reto, o que é sempre mais difícil do que seguir em zigue-zague. Próximo disco vai ter o “reggae do Matanza”, e o próximo Matanza vai ter o “axé do Matanza”. A gente não quer saber disso, sacou?A gente quer é escolher a dificuldade ser relevante sendo as mesmas pessoas, se a nós somos as mesmas pessoas, e pensamos nas mesmas coisas. Como é que a gente vai começar a falar sobre outras coisas? Não faz muito sentido. Ai o cara pode falar: “mas pô, você não bebe, como que você faz música sobre bebida?”. Aí eu respondo assim: “Eu não bebo, mas o refrão do Chamado do Bar diz: não devo nada pra ninguém, bebo se eu tiver afim, a vida é minha, e a sua que se foda”, então quer dizer, a música é o Chamado do Bar, mas na verdade pode ser o chamado que você quiser, e a música diz claramente um lance sobre isso, então quer dizer somos as mesmas pessoas que pensamos as mesmas coisas. Então seria muito estranho se a gente de um disco pro outro começasse a trocar de assunto. Começar a falar sobre outros assuntos que nunca existiram no universo do Matanza, sabe? E a mesma coisa tem a ver com a sonoridade e com uma porrada de coisa. Acho que a gente segue essa reta ai. Já não lembro mais a pergunta mas acho que é isso ai. (risos)

Pelo visto, vocês gostam de coisas mais ‘clássicas’. Quando vamos poder comprar um vinil oficial da banda?
O último disco saiu em vinil, mas a idéia é que a gente venha trazendo desde o primeiro até agora, mas o Odiosa Natureza Humana já saiu e já esgotou.

Foi edição limitada?
Não exatamente. A gente que fez pouco mesmo, por vacilo. E agora a gente espera vir trazendo os outros pra depois ter o catálogo inteiro em vinil ativo, mas acho que o que a gente prensou do Odiosa naquela época lá tá bom. Mas a ideia é vir do ‘zero’, com o Santa Madre, com o Músicas. E trazendo todos os discos em vinil.

Assim como o Ratos de porão, que fez um show em comemoração aos 30 anos de banda, que juntou todos os ex membros da banda, vocês tem planos de fazer algo parecido quando fizerem 20 anos de banda?
Olha cara, primeiro que eu e o Donida a gente discute sempre qual é a idade exata da banda (risos). Porque até hoje a gente não sabe ao certo quando a banda começou. E ai já não tem como fazer isso. Primeiro que a gente nem concorda em qual ano que a banda começou, segundo, porque a gente já perdeu os dez anos do Santa Madre, demos mole e perdemos, quando a gente se deu conta, já era tarde. Mas a gente vai fazer um documentário falando sobre a história da banda, que a gente está fazendo uma porrada de projetos, como o Matanza Fest. E a gente vai levando sempre fazendo novos projetos. Se está escrito que a gente comemora isso tal lugar, pode ter certeza que a gente comemora isso todos os dias.

E depois que todos esses projetos se encerrarem, vocês pretendem dar uma pausa nas atividades da banda, ou até mesmo acabar com a banda?  Vocês tem algum plano assim pro futuro?
Que mané pausa o quê! Eu não tenho a menor vontade, menor interesse, menor possibilidade de dar uma pausa. Muito pelo contrário. A gente trabalha cada vez mais e a única pausa que a gente pode ter é cair duro de tanto trabalhar. Tanto porque é o que a gente gosta de fazer. E se tem a possibilidade de fazer isso, eu acho que a gente no futuro vai até ser meio bizarro, tipo aqueles ex-jogadores de futebol que continuam jogando, saca? Eu só sei fazer isso. Gosto pra caralho disso. Vou ficar ridículo lá velhinho cantando, mas vou estar lá, velhinho, mas amarradão fazendo o que eu gosto. Não sei, e não quero fazer outra coisa da minha vida.

Ano passado eu vi vocês no Rock in Rio. Foi um grande show. Podemos esperar o Matanza no Rock in Rio novamente?
Pra te falar a verdade, não sei se vai rolar esse ano não, eles não são de repetir as bandas ali do terceiro escalão. Eles gostam de variar, também acho que a gente tava lá pra fazer o nosso papel. O Matanza nunca foi de ficar pedindo pra ficar colocando em festival. Chamou? ótimo, beleza, muito bem, se for legal a gente vai, se não for a gente não vai, mas eu acho uma merda ficar mendigando isso: “Pô, rola ai?”, “Encaixa a gente aí!”. É uma puta encheção de saco. As bandas tem que se tocar disso. As bandas que tem que ir vão e acabou. Se chamar a gente lá, beleza, vamos lá. Da última vez foi do caralho pra gente tocar para todo aquela galera. Aí depois do Rock in Rio, a galera fala: “pô, por que depois do Rock in Rio, vocês mudaram de degrau.” Não. A gente trabalha pra caralho, e tem coisas que são “marcos”. Naquele momento ali você pode até considerar que  subiu um degrau, mas a nossa carreira é uma curva e sofre todo o tipo de oscilação. Felizmente a gente trabalha para que as curvas sejam sempre pra cima. Mas aquele Rock in Rio foi na verdade o recibo de tudo que a gente tinha feito naqueles últimos anos. É porque a galera viu o show e tava cantando tudo aquilo lá, é porque viu o show em outro lugar ou que ouviu nossos CDs. Vou te falar: Não nenhum lugar que eu vá no Brasil, NENHUM, do mais distante do Acre até a ponta do Rio Grande do Sul onde alguém não vire pra mim e fale: “pô, eu vi vocês no Rock in Rio”, sempre tinha alguém no Rock in Rio, sacou? Ou seja, aquela galera lá, não foi uma galera que a gente formou nos três meses anteriores tocando no Rio ou São Paulo, naquela de “vamos tocar aí e fazer um publicozinho pro show do Rock in Rio ficar melhor”. Foi aquela galera que foi lá pra ver o Metallica, mas que tinha visto antes o Matanza “lá na casa do caralho”, “lá na puta que pariu”, “lá onde Judas perdeu as botas”, “lá na casa do cacete”. Então quer dizer, quando juntou ali, tinha uma porrada de gente que já tinha visto o show na cidade dele, sabia que era legal, que era maneiro, e que naquele dia ficou lá pra ver. Ou seja, era o resultado do que a gente tinha feito antes. Que é foda a banda virar e falar: “agora eu vou tocar uma musica que vocês nunca ouviram”. Não. O público viu a gente tocando aquilo ali antes em outro lugar, com a mesma disposição que a gente tava tocando naquele palco, que ai o cara pensa: “pô, os caras tocaram la na minha cidade com a mesma disposição que estão tocando aqui”. Pelo menos é assim que eu enxergo e aí sim o cara vira pra mim e elogia a banda. Realmente fiquei muito feliz com isso, mas esse ano não deve rolar não.

Vocês tem uma revista em quadrinhos, o que convenhamos é um diferencial enorme para uma banda. Como surgiu a ideia?
Idéia do Donida. Desenhista, ele que compõe as músicas, que faz as capas dos discos, faz a porra toda na verdade. O Donida é a mente psicótica  por trás do Matanza, que cria tudo que a gente tem pra falar e aí a gente vem aqui e só faz mímica das maluquices dele. Mas o Matanza Comics já ta meio velhinho, só saiu uma edição até hoje. E eu sempre fico colocando a maior pilha nele pra fazer mais. Mas hoje em dia ele não deve mais pra gente, aí só compõe e grava os discos. E ele trampa muito com desenho mesmo. Pra ele, fazer trampo de desenho é muito trabalhoso. Mas é o trampo que ele fica bem focado.A gente tem vontade de fazer mais comics, mas vai demorar um pouquinho ainda, porque esse projeto não está na frente agora, tem outros que são mais importantes, que estão bem mais adiantados.

Isso de certa forma ajudou a banda ou ficou só como passatempo?
Cara, não tem um peido que você de numa banda que se você tiver fazendo de verdade não te ajude. se for de verdade mesmo, se for de coração, se aquilo tiver a ver com a banda mesmo, porque é legal e tudo mais, vai te ajudar. Nem que te ajude a vir alguém e falar ‘cara, desiste ai que a banda é um lixo’. Mas querendo ou não vai te ajudar, então o que a gente faz no Matanza é coisa que todos gostam, ou seja, quem gosta de fazer show e ta na estrada, são os quatro que tão ai, eu, o China, o Jonas e o Maurício, porque o Donida não curte ficar nessa situação de viajar e o caramba, prefere ficar em casa compondo, então a gente ta fazendo o que a gente gosta, o Donida ta em casa fazendo o que a gente gosta, que é compor, fazer as capas, e a porra toda. E é isso, quando se faz algo que se gosta de fazer, que você tem orgulho, vai ser honesto e vai te ajudar, e se você não gostar, muda a parada, faça outra coisa da vida que é mais jogo.

Falando em passatempo, vi que você trabalha como produtor também, tem alguma banda que você vem trabalhando, ou alguma que “você vê futuro”?
Na real não, eu nunca trampo direto. Eu sou um produtor que quando aparece um disco, eu vou lá e mixo, vou no estúdio lá e ajudo a gravar. E porra, isso demanda muito tempo, já não tenho mais esse tempo todo livre, já não consigo fazer isso direito há muito tempo. O que eu tenho conseguido fazer, é receber quatro, cinco músicas de uma banda ali de uns camaradas, mixo ali em casa mesmo, sacou? E mando de volta. Mas nem consigo ir lá e gravar e acompanhar o processo. Então esse é um lance que eu gosto pra caralho, mas que não tem como. Você tem que tirar pé pra fazer e eu chego no Rio na segunda ou na terça, dai na quinta eu já tô viajando de novo, então é impossível. Nem fisicamente a saúde aguenta de entrar no estúdio e ficar lá gravando e porra, seria uma puta sacanagem ficar segurando a banda: “vamos gravar dois discos por semana”, sacou? Então quer dizer que daqui a 18 meses a parada tá pronta, a gente acaba o disco. Não tem como mesmo.  E é uma coisa que eu tenho feito bem pouco. Banda boa tem pra caralho, tem uma porrada de bandas por ai. Cada lugar que a gente vai tocar, tem uma banda mais maneira que a outra. Mas a música nunca é o problema, o problema é os caras “tramparem”.

Mas tem alguma banda que você pode dizer que é promissora?
Promissora pra quê? Ninguém aqui vai virar o Capital Inicial, e o resto todo são outro universo que não tem nada a ver com o nosso, nem com o que a gente enxerga ou trabalha, nem sequer almeja alcançar. Eu realmente adoraria chegar lá num lance muito legal de poder viajar de jatinho e o caralho, mas não é a realidade da parada. Não é e não rola. Todas essas bandas que são maneiras, se trabalharem bem, vão fazer quantos shows quiserem. Não tem nenhuma banda que vai tocar no Matanza Fest que eu não assine em baixo.

De uns anos pra cá, quem vem assumindo a guitarra no lugar do Donida é o Maurício. Em relação à composição, o Maurício vem ganhando espaço?
Nem ele, nem ninguém. A gente mandou várias músicas pra ele, e a resposta sempre era: ‘ta uma merda’ (risos). Mas na verdade, o que acontece é que a gente tem um processo de composição muito maluco: o Donida fica lá na casa dele compondo as coisas; ai eu vou pra São Paulo, montamos as bateras, os instrumentos, gravamos a guitarra, o baixo, a bateria, eu trago pro Rio e dai a gente passa a ouvir as músicas. Daí a gente chega no Rio, começa a tocar as músicas; aí chega o Donida pra ver como que elas fluem, aí ele começa a dar uma aparadas nas “gorduras sobrando”. Começa a mexer isso, muda ali, arruma aqui, muda essa introdução, vamos jogar isso pra cá, etc. Aí a gente grava de novo, passa pro Donida, ele faz o mesmo lance. Aí ele vai pro Rio, ensaia com a gente, meio que finaliza a música de novo, vê se tá maneiro e ai se tiver maneiro finalmente pega aquilo pra gravar, sacou? Então é um processo que todo mundo trabalha. Todo mundo tá lá o tempo todo, mas quem pega lá no final e assina como compositor é o Donida, que ele que faz porra toda.

Anteriormente, teria o Motorocker junto no Matanza Fest de Curitiba e também seria em outro lugar. O que rolou?
A gente ia ter esse show com o Motorocker, que é uma banda com um nome, com um público, e o show ia rolar em um lugar muito maior e que inclusive ia nos ajudar a pagar o cachê do Motorocker e esse lugar deu pra trás. De uma hora pra outra, e ai a gente não teve como bancar a situação. O Motorocker até tentou dar um jeito na situação, tirando, colocando e melhorando o que podia pra não ficar de fora. Mas ainda ia ficar muito complicado pelo tamanho do lugar que a gente conseguiu e eles ainda tem uma porrada de show acontecendo aqui em Curitiba junto, ai a gente falou: “Olha só, pra apertar esse botão aqui que a gente vai ter que virar, mudar tudo o lance, e ainda com esses shows rolando, vai ficar complicado mesmo”. E ai deu que a gente deixou pro ano que vem, fazer direito, fazer mais maneiro. Acho que é uma coisa muito simples. Não tem stress nem nada. No Matanza não tem stress. E também se tiver, não tem meio termo. Todo mundo sabe o stress que eu tenho.

Pra finalizar, mande uma mensagem pra galera aqui de Curitiba.
Rapaziada, não deixe ficar quente aqui, pelo amor de Deus. Curitiba é do caralho, eu adoro esse lugar, adoro a rapaziada, adoro as minas, só que tá muito quente, assim não dá. Ta o maior inferno. Liga o ar-condicionado dessa cidade no gelado e continuem como vocês são que vocês são do caralho!

 

Entrevista: Augusto Bernardi Pereira
Foto: Alexandre Buga

Studio Tenda
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